Zé Ventura

Maria José, Zé Ventura, nasceu em Lagos e viveu tempo em Monchique.

A pintura e a tecelagem são as suas formas privilegiadas. Com estas constrói e desenvolve um mundo de representações a partir de elementos gráficos, “linhas que acontecem”, as quais intuem possibilidades imaginadas e nos lembram outras artes, talvez as naturezas ficcionadas da literatura viajante ou os sons enormes da solidão das montanhas e dos oceanos, movimentos da água, respiração de todos os mares.

Na sua pintura existe um mundo de silêncios pictóricos que relacionam memórias, tranformadas em movimentos perpétuos em busca de respostas para a simplicidade das perguntas mais profundas. As obras contam-nos talvez, algo de como as coisas deveriam ser.


Jorge Queiroz
In Catálogo “Tríptico” Tavira Outubro 2006

Currículo
MARIA JOSÉ MARTINIANO VENTURA

Nasceu em Lagos a 10 de Maio de 1956.
Viveu a infância e adolescência em Monchique e Lisboa.
Frequentou a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa de 1976 a 1980.
Vai viver para Portimão onde desenvolve o seu trabalho de pintura e tecelagem.
Prémio Nacional e Regional de Tecelagem Criativa.
Trabalhos seus fazem parte de colecções em Portugal e no estrangeiro.
Vive agora em Monchique e Portimão.

Exposições:

2015 - “MALA” mostra de artistas de Lagos – colectiva
2013 - “Sol és a verdade,mas odeio-te!” Galeria de Arte do Convento Espirito
Santo - Loulé – colectiva
“Imagens do tempo” Clube Residencial São Miguel, Lisboa – individual
2012 - “Imagens de momentos” Casa dos Cubos, Tomar – individual
2011 - “MALA” 4ª mostra de artistas de Lagos – colectiva
2010 - “Another place”, ISCTE, Lisboa – individual
“XVII Encontro dos Artistas Plásticos , Sintra – colectiva
2009 - “O tapete voador” Arraiolos,- colectiva
2008 - “Mala” 3ªmostra de artistas de Lagos, Lagos – colectiva
“Paisagens”, Galeria Lobo Mau, Arraiolos, - individual
“Movimentos na cidade” Museu de Portimão, – individual
“Movimentos na cidade” Custódio Moutinho, Lisboa – individual
“Cores na cidade” Fábrica do Braço de Prata, lisboa – individual
2007 - “Tríptico”, Palácio da Galeria, Tavira com Jason Berger e Miguel Andrade
“As cores do som” Custódio Moutinho, Lisboa – individual
“Mala”, mostra de artistas de Lagos – colectiva
O livro “As cores do tempo” foi distinguido com Menção Honrosa no London Book Festival

2006 - “Here and now”, Centro Cultural de Lagos – individual“
As cores do tempo”,Projecta design, Tomar – individual
Lançamento do livro de autor “As Cores do Tempo”, integrado em “Faro Capital Nacional da Cultura 2005”
2005 - “As Cores do Tempo”, Galeria Sto António, Monchique – individual
“Arte no Feminino”Fundação EngºAntónio de Almeida, Porto – colectiva
2002 - “Cores tecidas”, Museu Nacional do Traje, Lisboa - individual
“Cores tecidas”, Museu de Évora - individual
“ Terra e mar “, Galeria 21, Évora - individual
2001 - II Jornadas de Monchique - individual

2000 - “Artistas por Timor” na Batalha e na Póvoa da Varzim Fantasporto Pequeno Formato , Porto
“60 minutos para os próximos mil anos“ – Lisboa
“Perto do mar” Galeria Maré d’Arte, Carvoeiro – individual
Arte na Cidade , Casa M. Teixeira-Gomes, Portimão - colectiva.
“Objectos com alma” Centro Comunitário de Pesquisas-Varese, Itália - colectiva
1ºEncontro de Tapeçaria Portuguesa Contemporânea, Loures
1998 - Casa da cultura, Loulé - individual
“Transposições” Antigo Mercado Municipal, Portimão - individual
GAIA - Kunst Kontraste, Convento Wettenhausen, Ausburg, Alemanha
1997 - “Transposições simultâneas” Padrão dos Descobrimentos, Lisboa- individual
1996 - Espaço Gan, Lisboa - individual
1995 - Óptica , Cascais
Participação no II Prémio Almada Negreiros - MAPFRE
1994 - Castelo de Niederranau, Augsburg, Alemanha – artistas da GAIA
1993 - Expofashion - Exposição de Designers de Moda, FIL- Lisboa
1992 - Hotel Almansor, Carvoeiro - Individual
1991 - Exposição integrada na Semana do Algarve no Parlamento Europeu, Bruxelas
1990 - Artes Mãos, Évora – colectiva
1988 - Bienal de Lagos
1986 - Galeria LAGOS, Lagos - colectiva
1985 - Agitarte, (grande formato) - Aveiro
1984 - Bienal de Lagos
Bienal de Vila Nova de Cerveira
Mercado dos Escravos , Lagos - Individual
1982 - Bienal de Lagos
II Salão de Primavera do Casino Estoril
Mercado dos Escravos, Lagos - Individual
Casa das Artes, Lagos - colectiva

É membro de: SPA - Sociedade Portuguesa de Autores
GAIA - Associação Cultural na Alemanha

A vida cria, ela própria as próprias condições para a sua existência

Os filósofos gregos eram da opinião que a matéria era dotada de alma e com o advento de uma nova era de pensamento os cientistas e os estudiosos do espírito demonstraram-nos que desapareceram as barreiras, neste limite erguidas pelo homem.
Onde vamos nós, hoje em dia, encontrar os sinais mais marcantes desta mudança de perspectiva?

  • O voltar-se a ter consciência na Europa dos valores mais elevados do Princípio feminino no sentido que lhe é atribuído na ideologia do extremo Oriente do Yin e do Yang em simultâneo com a anulação do realce dado ao princípio masculino do patriarcado.
  • A mudança da nossa perspectiva metódica sobre pensamentos sistemáticos e interligados, em vez da observação unilateral dotada de uma perspectiva de detalhe analítico e por conseguinte, a obtenção de uma visão sintética e global.
  • A perspectiva nova, a que acabámos de nos referir, que é cheia de força e dotada de simultaneidade relativamente à “res cognitans” e à “res extensa”, que desde Descartes sempre foram analisadas em separado e que, no entanto, na realidade, se manifestam como uma unidade.
  • A divulgação de um pensamento integral, que nas camadas mais amplas da população só é possível através das condições criadas pelas novas técnicas de multimédia e da Informação.
  • A análise de uma hipótese da Gaia feita por Lovelock: “Formulada de uma forma simplificada, afirma a Hipótese colocada pela Gaia que as camadas mais superficiais da Terra, que até aos nossos dias foram consideradas como o ambiente em que a vida se desenvolvia, constituem, afinal ,uma parte da própria vida.
    A Troposfera, deve ser considerada como um sistema de vida cuja origem é na própria vida e que assim é mantido. Quando os cientistas nos dizem que a vida se adapta a um ambiente na sua essência,passivo composto pela Química, pela Física e de rochas, então estão a perpetuar uma visão distorcida , a vida , na realidade , faz, molda e altera e transforma o ambiente ao qual ela se adapta.
    E em seguida é este “ambiente” que por sua vez actua sobre a vida, que nela se altera, age,cresce e se desenvolve. E então acontecem as sempre cíclicas transformações.”

Estes progressos a nível de pensamento na busca de uma perspectiva de vida e de existência mais global reconheço-os também nos trabalhos dos artistas plásticos contemporâneos e nas formas dos seus representantes, tal como sucede com a Zé Ventura.
Tal como a vida na Terra não encontrou as condições ideais para se enriquecer e desenvolver, tendo permanecido em permanente mutação e em busca de equilíbrio para criar as suas próprias condições de vida, também sucede o mesmo aos obreiros da cultura e da arte que estão em permanente busca de equilíbrio com o ambiente em que estão inseridos. Ele modela-os e eles a ele.

Também no trabalho em análise da Zé Ventura consigo reconhecer esta busca de equilíbrio, a paisagem algarvia, as pessoas, as ideias, a sua família e aos seus amigos, os admiradores da sua obra que a gravam na sua memória e numa acção recíproca, são influenciados por ela.
Neste sentido, a artista consegue, tal como sucede com a própria vida, criar as condições da sua existência.

Comentário feito por Hans Georg Schmid, Presidente da Gaia - Sociedade Cultural da Alemanha, fundada em 1990, sobre o trabalho de Zé Ventura, 1998



“O Mundo pós - perspectivo, como forma do imaterial”

O tempo, o espaço, a luz a estrutura, a cor... enquanto construções do espírito humano devem ser vistas a par da “formação” de conceitos por parte dos intelectuais. A Zé Ventura apresenta-nos nos seus trabalhos os seguintes conceitos duma forma figurativa:

  • O tempo como momento, com grande energia numa permanente renovação;
  • O local como fixação, enquanto conteúdo do olhar;
  • A estrutura como forma, criada pelo conteúdo do essencial;
  • A luz e a cor como reflexo do local, do material e do próprio olhar;
  • A imagem como parte do eu que se reflecte e participa

O proveito que se retira ao analisar o trabalho da Zé Ventura fundamenta-se na intensidade, na paixão que o seu trabalho consegue criar. Ela indica-nos novas perspectivas e novos mundos deixando-nos tomar parte num emaranhado harmonioso de visões universais pós-perspectivas cheias de interesse.

Comentário feito por Hans Georg Schmid, Presidente da Gaia - Sociedade Cultural da Alemanha, fundada em 1990, sobre o trabalho de Zé Ventura, 1998

Museu de Portimão

"O labirinto simboliza o caminho da sabedoria pelo qual passa a mensagem comum a todos os enigmas, o segredo da vida"
Jacques Attali

Creio que é nessa analogia com o labirinto, o local onde se descobre a existência de pontos de contacto com a pintura e o trabalho plástico da Zé Ventura, onde as superfícies se sucedem em extensas teias de linhas cruzados, dispersas ou urdidos, caminhos de luz, sombras, planos sobrepostos e entrelaçados, momentos até de ausência da própria cor.
Tal como um fio contínuo tecido por Ariane, filha do rei Minos, para conduzir Teseu, libertando-o do emaranhado percurso do labirinto de Knossos, assim devemos nós seguir as texturas escritas pelo movimento da tinta, sentir os sinais impressionados pelas manchas coloridas, tocar a luz negra que subitamente nos devolve os estridentes brancos.
Talvez resida aí, na sobreposição espacial dos planos e nas sucessivas camadas de estados de corpo, alma e cor, o caminho para sentirmos as diversas saídas propostas pela pintora, nestes seus “Movimentos na Cidade”.

José Gameiro
In Catálogo “Movimentos na Cidade” Museu de Portimão, 2008